terça-feira, 29 de julho de 2008

Finalmente.


I was blind... couldn’t see

what was here in me
I was blind... insecure
I felt like the road was way too long


The Verve - Love is noise


(Primeiro dia de férias: a sensação estranha de ter partido deixando um bocadinho de mim para trás. Talvez até seja bom... Um novo começo é precisamente aquilo de que preciso.)

sábado, 26 de julho de 2008

À deriva


Nada é permanente e definitivo. Só a morte. E mesmo essa não pode levar a memória daquilo que fomos na vida dos outros, da diferença que fizemos, dos sorrisos e lágrimas que provocamos. Por que motivo, então, me soa esta vida a algo tão frágil e definitivo?

Deixo que as ondas me embalem na esperança que me conduzam a um porto seguro... Sinto-me rodeada por um mar transparente e misterioso que encerra tantas incertezas como a terra firme que abandonei. Talvez não haja um momento certo para partir, talvez deixar para trás aquilo que fomos seja sempre penoso.

Apesar de tudo, não posso deixar de me sentir feliz. Larguei por momentos o leme e deixei que fosse a vida a acontecer-me... E aconteceu-me. E continua a acontecer. E não me arrependo. Porque, no fundo, chego a cada o porto com esperança de me encontrar e de dar o melhor de mim... E parto mais enriquecida, com a certeza que ainda há muito para ser e fazer... Nunca só.


Everything is open
Nothing is set in stone
Rivers turn to ocean
Oceans tide you home
Home is where your heart is
But your heart had to roam
Drifting over bridges
Never to return

Travis - Driftwood

domingo, 20 de julho de 2008

Em perspectiva

Generosity.
Be generous.
With your time... with your love... with your life.

sábado, 31 de maio de 2008

Suspiro


Man muß noch Chaos in sich haben, um einen tanzenden Stern gebären zu können.
Nietzsche

Existence really is an imperfect tense that never becomes a present. Nietzsche

Was mich nicht umbringt, macht mich stärker. Nietzsche

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Devaneios cansados ao crepúsculo

(Devaneio: acto ou efeito de devanear; fantasia; quimera; desvario)

Não sei como escrever e não me apetece fazê-lo. A inquietação regressou hoje com um vigor tal que me arrebatou, sem piedade. As incertezas e inseguranças tomaram as rédeas do meu dia e nem o Sol que finalmente se dignou a aparecer conseguiu restituir o sorriso. Mesmo assim, sei que, um dia, toda esta névoa há-de passar e nessa altura sentirei que o esforço e sofrimento valeram a pena. Pena é que esse momento pareça tão longínquo e inacessível, que "esse lado" que tanto anseio exija mais do que aquilo que consigo dar!

Desconheço o reflexo que vejo nas lágrimas. Estranho esta angústia que corrói a minha habitual determinação e ânimo. A minha esperança jaz frustrada e eu não entendo porque sofro assim. Temo estar a lutar incansavelmente por uma vida que não pode ser a minha, que não mereço, afinal... No entanto, continuo a seguir por esse caminho desconhecido, acompanhada pelos "múltiplos" eus que podia ter sido (e não fui) se tivesse tomado determinado atalho. Não me arrependo de nenhuma escolha, de nenhuma queda. Só gostava de poder compreender melhor a pessoa que sou agora, de poder dar mais de mim àqueles que fazem da minha vida algo pelo qual vale a pena lutar. Aguardo ansiosamente que estes períodos turbulentos passem e que o sol ilumine de novo o caminho para que eu possa encarar com mais confiança o futuro.

Apesar de toda a complexidade que temo em deixar vencer, tenho muitos motivos de felicidade. Pena é que, às vezes, a penumbra seja tão grande que não consiga vê-los. Estou muito grata por todas as pessoas que fui conhecendo e que foram entrando no meu mundo, deixando a sua marca e contribuindo para aquilo que sou. É reconfortante sentir que o futuro, por muito incerto que possa parecer, é feliz desde que os meus amigos e família façam parte dele.


Pink Floyd
- High Hopes

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Chega de silêncio... mas será o momento certo?


Chove…
Mas isso que importa!,
Se estou aqui abrigado nesta porta
A ouvir na chuva que cai do céu
Uma melodia de silêncio
Que ninguém mais ouve
Senão eu?

José Gomes Ferreira

Hoje não chove... o Sol já não brilhava assim há muito. Já sentia saudades do calor meigo na pele, da luminosidade de um dia de Inverno vista do lado de fora da janela. A curta viagem até à faculdade despertou-me os sentidos, arrancando-me do marasmo e moleza do primeiro dia de férias. Recordou-me que, embora os primeiros desafios já tenham sido vencidos, tenho falhado noutras esferas da minha vida. Está na altura, talvez, de descobrir e conquistar novos horizontes, abandonando a segurança das sendas já percorridas. Contudo, nem sempre é fácil desprezar aquilo que se tinha como garantido e que transmitia o reconfortante sentimento de realização. A aventura do desconhecido acarreta inúmeros riscos, exigindo a renúncia ao facilitismo, ao conformismo. A decisão de (re)construir um projecto de vida feliz implica percorrer um caminho árduo e fragoso. Quando penso sobre o significado de tudo aquilo que sou não posso deixar de me sentir inconformada. Quero mais... quero reciprocidade!
É participando da melodia de silêncio que tenho aprendido a compreender os enigmas que assombram uma existência feliz e a encontrar as respostas para as perguntas que nunca ousei colocar em voz alta. Nem sempre elas coincidem com aquilo que esperava mas são, sem margem para dúvidas, uma pequena luz na grande penumbra do que sou e para onde vou. São essas respostas simples e significativas que me têm ajudado a fazer frente e conquistar os obstáculos que se interpõem no caminho escolhido. Nestes últimos tempos, só na comunhão com o silêncio é que tenho conseguido reunir, numa só entidade, aquilo que fui, sou e serei. Mudei tanto neste último ano e, se isso aconteceu, muito o devo àquelas pessoas que são a constante mais invariável da minha vida e o alicerce das minhas (poucas) certezas. "Sei que sabem que sim"
No entanto, mesmo sabendo que a mudança foi frutuosa (apesar do que implicou), não sei se estou disposta a correr um novo risco. Por muito que quisesse, por muito que o meu coração assim o ditasse, não sei com que armas devo lutar desta vez nem que estratégia usar. Sinto-me encurralada numa encruzilhada em que o caminho por onde vim é tão imprevisível como aquele por onde sigo. Precisava de, pelo menos uma certeza, que me indicasse que, desta vez, não serão vertidas lágrimas nem haverá sorrisos tristes. Sei que não há certezas nem absolutos mas é tão difícil avançar no escuro, sem a esperança a iluminar as pedras do caminho! Compreendo que não se atinja a felicidade sem sofrer um bocadinho no trajecto... Mas o que resultará se estiver disposta a correr o risco, sofrer e mesmo assim não conseguir? O que sobrará desta vez?

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Porque dói...

As palavras mais nuas
As mais tristes.
As palavras mais pobres
As que vejo
Sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegrias elas sonham, que outro dia,
Para que rostos brilham?

Procurei sempre um lugar
Onde não respondessem,
Onde as bocas falassem num murmúrio
Quase feliz,
As palavras nuas que o silêncio veste.

António Ramos Rosa

Era bom que as palavras não respondessem, não ferissem, não deturpassem, não matassem. Mas que digo eu? Não são elas que matam, deturpam, ferem e respondem. São Eles que lhes imprimem essas intenções de tal forma que as palavras ficam irrevogavelmente presas a um significado que não era originariamente o seu. A partir desse momento deixam de ser meros símbolos, tornando-se títeres nas Suas mãos. Aí sim, ascendem à categoria de armas de destruição massiva, mais fortes, potentes e perniciosas do que qualquer acção. Alguns actos podem ser reparados, minorados. Outros compensados. Contudo, dificilmente se esquece uma palavra cruel, inimiga, proferida num momento inoportuno. Pode-se perdoar; contudo, a tentativa de esquecer torna-se ineficaz, quando se sabe que a palavra deixou um sulco profundo na alma, invisível é certo, mas infinitamente mais doloroso do que qualquer cicatriz visível. Para as dores do corpo (e não todas), a medicina tem descoberto múltiplas formas de minorar o sofrimento. Para a mágoa, para a fragilidade humana posta a descoberto, não existe cura. Apenas o tempo.
Um uso imponderado e ruinoso da palavra cria instabilidade, envenena as relações humanas, corrói o silêncio e perpetua o caos e a anarquia das vidas humanas. Felizmente, a palavra é também capaz de unir pessoas diferentes em torno de objectivos comuns, de transmitir emoções, de fazer a paz e a justiça, de incendiar sentimentos puros em corações frágeis ou endurecidos pelo esquecimento. Se não for manipulada e lançada sem piedade, ela pode atingir um significado pleno, iluminando os sonhos de quem a ouve ou lê e contribuindo para a edificação de verdadeiros "castelos no ar", onde o silêncio é feliz por saber-se oportuno e não constrangedor.
Também eu quero "As palavras nuas que o silêncio veste"... não aguento viver no ruído e marasmo dos meus dias... preciso de paz.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

A derradeira batalha

Vão vagos pela estrada,
Cantando sem razão
A última esp’rança dada
À última ilusão.
Não significam nada.
Mimos e bobos são.

Vão juntos e diversos
Sob um luar de ver,
Em que sonhos imersos
Nem saberão dizer,
E cantam aqueles versos
Que lembram sem querer.

Pajens de um morto mito,
Tão líricos!, tão sós!,
Não têm na voz um grito,
Mal têm a própria voz;
E ignora-os o infinito
Que nos ignora a nós.

Fernando Pessoa


Vão vagos pela estrada, sem rumo certo, deixando-se conduzir pela brisa suave do destino. Não sabem o que querem, não projectam o futuro. Fruem o presente, sem preocupações nem outros deveres que não estudar e apreciar a adolescência. Vivem recatados nas suas casas, embrenhados na esfera social a que pertencem e que lhes transmite a protecção e segurança de um ambiente explorado e acolhedor. Contudo, conhecem muito pouco do verdadeiro mundo, aquele em que as suas irresponsabilidades (mesmo que fortuitas) poderiam marcar de forma indelével a sua vida. De repente, sem qualquer preparação prévia, são lançados no mundo real, exigindo-se discernimento e sensatez para a edificação de um projecto de vida. Abandonam as caras conhecidas, a escola tutelar, os professores atentos e disponíveis. Põem de lado as amizades que demoraram anos a aprimorar e aperfeiçoar e vêem-se obrigados a desocupar o confortável mundo conhecido. São diversos e sós, lançados sem piedade num mundo que não tem tempo nem disposição para amparar as quedas. Não significam nada e a vida lírica que levavam é subitamente repudiada pela sociedade, afastando-os das suas ilusões e esperanças. Apesar de tudo, vão juntos. Sem voz, sem esperança, apenas sonhando. Porque no terreno do sonho nem a sociedade pode impor a sua autoridade. Vão juntos e, embora ignorados pelo infinito, sabem que estão prestes a enfrentar a derradeira batalha. Nessa batalha não ganham os que estudam mais ou que possuem mais sabedoria. Vencem apenas aqueles que têm maior capacidade de sonhar e de investir na concretização dos seus projectos. É a derradeira batalha pela felicidade que os jovens se vêm obrigados a iniciar. Uma batalha para a qual não têm maturidade suficiente e onde cada um se significa apenas a si próprio. Uma batalha que talvez lhes permita alcançar uma identidade singular e um sentido para a sua existência. Ou talvez não.

Escrevi este texto o ano passado, enquanto esperava ansiosamente pela saída do resultado das colocações na faculdade. Felizmente, foi-me concedida a oportunidade de viver o sonho pelo qual lutei no secundário. Só espero nunca defraudar as expectativas de quem espera tanto de mim...
O meu pensamento vai hoje para todos aqueles que alcançaram finalmente a meta a que aspiraram. Que a nova etapa que agora iniciam lhes traga a serenidade, alegria e maturidade para enfrentar os desafios que já espreitam. Aos que ainda se debatem com as dificuldades, desejo sinceramente que o seu sonho nunca esmoreça pela frustração ou cansaço!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

É o retorno

Começou. Ainda que a meio gás. A partir de hoje o 704 pode contar com mais uma passageira assídua... É o regresso à minha segunda casa, à faculdade que tão calorosamente me acolheu no ano passado. Já sentia saudades dos corredores labirínticos, dos elevadores decrépitos que encravam teimosamente entre pisos, do silêncio avassalador da biblioteca, do odor do teatro anatómico (!), da alegria que impera no salão, dos sofás, dos almoços no 02 com a ementa de sempre. Mas do que sentia mais falta era dos amigos, das piadas disparatadas depois de uma aula complicada, das partidas animadas de matrecos onde aproveitávamos para descarregar as frustrações e o cansaço de muitas horas de estudo. Ansiava por aquelas conversas nos intervalos em que se discutia tudo e nada, apenas pelo prazer de partilhar à socapa mais uns minutos, mais um sorriso, mais um silêncio compreensivo, mais um problema. E sentia vontade de novo (re)descobrir os mistérios que o nosso corpo encerra, lentamente tomando consciência de como tudo está tão bem orquestrado e programado. Os livros a estrear, os cadernos ainda em branco, os apontamentos, os anfiteatros, os laboratórios, os professores... enfim, tudo isso constituía uma lacuna enorme porque o estudo é parte integrante de quem sou e de quem vou ser. "Primum non nocere". Primeiro, não fazer mal. O princípio hipocrático recorda-me que eu devo aproveitar a oportunidade de estudar na FMUP para crescer como pessoa e para me tornar a melhor médica possível até porque uma é indissociável da outra. Só assim poderei, no futuro, servir e acolher bem a sociedade que também um dia me recebeu, tentando tornar mais felizes não só aqueles que me procuram, mas também, aqueles que me têm acompanhado corajosa e pacientemente em todas as encruzilhadas da vida.

"There is joy in work. There is no happiness except in the realization that we have accomplished something." Henry Ford

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Memórias

Este texto é dedicado à minha avó Júlia, ao meu avô Manel e à minha avó Emília, que ainda permanecem junto de mim, e ao meu avô Quim cujo coração levou-o pouco depois de eu ter nascido, privando-me de um avô extremoso, terno e amorável.

Veio-me hoje a nostalgia de um tempo muito feliz, (quase) esquecido num canto sombrio da minha memória. Depois de livre do pó do passado, esse tempo revelou-se para mim com um brilho que eu julgava já não ser possível de recuperar. Não sei o que desencadeou esta minha necessidade de percorrer de novo os caminhos tortuosos mas infinitamente felizes da minha infância... ou talvez saiba mas me custe a admitir. Um dia destes, dei por mim a olhar para os meus avós, pensando como já estavam velhinhos e cansados e como tinha saudades daquelas manhãs em que a minha avó Júlia jogava futebol comigo, daquelas tardes em que o meu avô Manel me iniciava nesse jogo viciante que era a bisca ou daquelas brincadeiras com a minha avó Emília que não se importava quando eu fazia batota no Monopoly para ganhar. Os meus avós personificavam todas as personagens do meu mundo de fantasia... brincavam às casinhas, aos supermercados e aos médicos com uma paciência infinita, sem olharem para o relógio nem para a desarrumação que reinava por instantes naquele quarto. Acarinhavam-me, deixavam-me comer guloseimas e velavam o meu sono quando estava doente ou tinha medo. Agora, ao vê-los, reconheço que o tempo passou depressa, levando consigo não só a saúde mas também os seus netinhos... Dessas crianças de dez anos não sobra nenhuma que preencha o vazio de uma tarde com o seu riso ou com uma asneira inconsequente. Contudo, os meus avós não estão sozinhos... sabem-se acompanhados por filhos e netos que os amam mas que vivem apressados o quotidiano, sabendo que o futuro não espera por eles. O ritmo é diferente. Para os meus avós, cada dia é uma enormidade de segundos preenchidos por um passeio, por um programa na televisão, por um croché, por uma sesta, por um terço, por uma consulta no centro de saúde, repetindo-se o mesmo ciclo dia após dia. Para mim e para os meus pais, cada dia é uma corrida contra o tempo, na ânsia de concretizar todos os projectos de vida acalentados ao longo do percurso. Por isso é que julgo compreender quando os meus avós se sentem sozinhos mesmo com a nossa presença a alguns metros de distância. E por isso também é que tenho um enorme orgulho neles. Todos os dias se deixam conduzir com alegria pelo lento passar do tempo, sobrevivendo às suas partidas e lutando por uma vida que sabem que também pertence àqueles por quem são amados. Cada ruga, cada dor nas articulações e cada cabelo grisalho não é apenas sinal do envelhecer mas é sobretudo a memória viva de todos os sacríficos que os meus avós fizeram para conseguir que os filhos estudassem e tivessem as ferramentas para ser felizes. Os meus avós abandonaram as suas aldeias à procura de trabalho que lhes permitisse subsistir e prosperar numa terra que não era a deles. Procuraram dar aos filhos aquilo que a eles tinha sido negado pelas dificuldades de uma época conturbada em Portugal. Mesmo não sendo licenciados, souberam utilizar a sua literacia rudimentar e o seu saber empírico para tornar a vida dos que os rodeavam mais feliz. É impossível transmitir por palavras a gratidão e amor que sinto por estes anciãos que ainda conservam no olhar a mesma juventude de outrora. Da próxima vez que os visitar não os encararei mais como avós velhinhos e cansados mas recordarei com eles as proezas passadas e verei de novo, diante de mim, a avó "futebolista", o avô "das cartas" e a avó "cúmplice da batota".

"When grace is joined with wrinkles, it is adorable. There is an unspeakable dawn in happy old age." Victor Hugo